CIDADE FALIDA - TRIBUTO AO 18 JANEIRO

       Há coisas, que nos chegam através dos meios de informação, que, de tão incomuns nos surpreendem de uma forma invulgar. Excluindo episódios de crimes violentos ou outros comportamentos humanos que nos deixam prostrados de indignação e surpresa, ou mesmo aqueles episódios extraordinários que pela positiva nos fazem valorizar a vida e o que ela tem de bom, há também quase diariamente, muitos outros acontecimentos que nos fazem reflectir, entre outras coisas, sobre o que no passado possa ter contribuído para que se dessem e sobre as suas repercussões  no futuro.

      Se houver, quem nunca assim se tenha sentido, em relação a facto, acontecimento ou notícia que o tenha deixado perplexo, não estará talvez tão atento ou na mesma sintonia de estado que ouso transmitir. Chamaria de abismado, o estado em que me deixou o motivo inspirador desta conjectura, deste surpreendente.

      Não sendo a minha memória das mais fiáveis, acho mesmo assim, que poucas coisas na minha vida me surpreenderam tanto como saber que uma cidade inteira abriu falência. A cidade de Detroit, uma grande cidade que chegou a ser a 4ª maior dos EUA.  Tudo faliu, todas as casas, grandes, pequenas, grandes prédios, grandes empresas. Indústrias, comércios, serviços, gestão governativa, trabalhadores, patrões, chefias, tudo e todos (ou quase todos), faliram e se mudaram, a cidade ficou deserta ou entregue aos bichos, actos de vandalismo, etc.

      Manobras políticas e económicas nunca foram o meu forte, sempre as encaro de forma primária e pouco esclarecida, como tal, dificilmente entenderia algo com tamanha dimensão.

      O que não entendemos de forma nenhuma, mais facilmente nos surpreende de todas as formas, e este é ou assim me parece, um caso para muitas formas de entendimento. “Uma cidade inteira abriu falência, e aconteceu nos Estados Unidos da América.”
Passado que é o primeiro impacto, espanto e assombro, resta-me um residual sentimento de quase horror, fascínio e muita inquietação.

      A inquietação subjacente a essa situação aparentemente distante, vem do facto de achar, que pode não ser tão subjectivo, acontecer algo semelhante muito mais próximo das nossas realidades.

      Quando viajamos pelas estradas do país de Norte a Sul, ao longo do percurso, deparamo-nos com exemplos do que foram actividades económicas prósperas, mas que, ao contrário de há bem pouco tempo atrás quando nos davam uma ideia de inabalável prosperidade, hoje nos dão uma imagem de total falência, não só da rua por onde passamos, não só a de uma grande cidade, mas a de que o país inteiro está a falir.

Por todo o lado as imagens que se destacam são:
 VENDE-SE / ALUGA-SE , CEDE-SE OU PASSA-SE…

      Vemos indústrias, estabelecimentos comerciais e restauração, tudo fechado, tudo degradado e ao abandono, vemos um país falido e entregue a funestos malfeitores, carrascos dum povo.

      Se o facto de saber-mos, que uma cidade como Detroit ao abrir falência económica, física e activa já não nos surpreende, será talvez altura de nos sublevarmos em acções de protesto contra a indiferença dos que estão a deixar morrer o nosso país e a nossa cidade, que todos vemos já sem muita surpresa entrar em falência compulsiva. Não serão as aparatosas estruturas em que tanto se investe que a farão reviver ou seduzirão positivamente, os que de olhos atentos, jamais verão um enquadramento lógico e convincente dessas obras com o resto da cidade.

      Se justamente, recordarmos, os que naquele dia 18 daquele mês de Janeiro de 1934 arriscando as suas vidas enfrentaram descalços e arcaicamente armados, um poder absoluto ao serviço dos que exploravam o seu trabalho sem nenhuma consideração, sem nenhum critério de justiça social ou humana, maior valor daremos à sua temeridade e coragem.

      Foram, os que tirando partido do imenso e árduo trabalho alheio, impondo sacrifícios e muita miséria, não proporcionando a quem os servia formas de vida digna, que despoletaram  naqueles homens de muita garra e raiva contida, a vontade de lutar enfrentando batalhas tão desiguais.

      Foi em Janeiro de 1934, esse exemplo de ousadia e coragem. Mais uma vez os vamos recordar e homenagear, e, como sempre, pela voz dos que ao contrário do seu exemplo, tendo a oportunidade de fazerem um pouco mais por esta cidade, tão poucos sinais nos dão de perseverança e ousadia, mesmo sabendo, que há cidades como a de Detroit, que vão morrendo lentamente, até que um dia abrem falência total e permanente, por mais estranho e surpreendente que isso nos pareça “As cidades também morrem”.

Rosa Quadros
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