Há coisas, que nos chegam através dos meios de informação, que, de tão incomuns nos surpreendem
de uma forma invulgar. Excluindo episódios de crimes violentos ou outros
comportamentos humanos que nos deixam prostrados de indignação e surpresa, ou
mesmo aqueles episódios extraordinários que pela positiva nos fazem valorizar a
vida e o que ela tem de bom, há também quase diariamente, muitos outros
acontecimentos que nos fazem reflectir, entre outras coisas, sobre o que no
passado possa ter contribuído para que se dessem e sobre as suas
repercussões no futuro.
Se houver, quem
nunca assim se tenha sentido, em relação a facto, acontecimento ou notícia que
o tenha deixado perplexo, não estará talvez tão atento ou na mesma sintonia de
estado que ouso transmitir. Chamaria de abismado, o estado em que me deixou o motivo inspirador
desta conjectura, deste surpreendente.
Não sendo a minha
memória das mais fiáveis, acho mesmo assim, que poucas coisas na minha vida me
surpreenderam tanto como saber que uma cidade inteira abriu falência. A cidade
de Detroit, uma grande cidade que chegou a ser a 4ª maior dos EUA. Tudo faliu, todas as casas, grandes,
pequenas, grandes prédios, grandes empresas. Indústrias, comércios, serviços,
gestão governativa, trabalhadores, patrões, chefias, tudo e todos (ou quase
todos), faliram e se mudaram, a cidade ficou deserta ou entregue aos bichos, actos
de vandalismo, etc.
Manobras
políticas e económicas nunca foram o meu forte, sempre as encaro de forma
primária e pouco esclarecida, como tal, dificilmente entenderia algo com
tamanha dimensão.
O que não
entendemos de forma nenhuma, mais facilmente nos surpreende de todas as formas,
e este é ou assim me parece, um caso para muitas formas de entendimento. “Uma
cidade inteira abriu falência, e aconteceu nos Estados Unidos da América.”
Passado que é o primeiro impacto, espanto e assombro, resta-me
um residual sentimento de quase horror, fascínio e muita inquietação.
A inquietação
subjacente a essa situação aparentemente distante, vem do facto de achar, que
pode não ser tão subjectivo, acontecer algo semelhante muito mais próximo das
nossas realidades.
Quando viajamos
pelas estradas do país de Norte a Sul, ao longo do percurso, deparamo-nos com
exemplos do que foram actividades económicas prósperas, mas que, ao contrário
de há bem pouco tempo atrás quando nos davam uma ideia de inabalável prosperidade,
hoje nos dão uma imagem de total falência, não só da rua por onde passamos, não
só a de uma grande cidade, mas a de que o país inteiro está a falir.
Por todo o lado as imagens que se destacam são:
VENDE-SE / ALUGA-SE ,
CEDE-SE OU PASSA-SE…
Vemos indústrias,
estabelecimentos comerciais e restauração, tudo fechado, tudo degradado e ao
abandono, vemos um país falido e entregue a funestos malfeitores, carrascos dum
povo.
Se o facto de
saber-mos, que uma cidade como Detroit ao abrir falência económica, física e
activa já não nos surpreende, será talvez altura de nos sublevarmos em acções
de protesto contra a indiferença dos que estão a deixar morrer o nosso país e a
nossa cidade, que todos vemos já sem muita surpresa entrar em falência
compulsiva. Não serão as aparatosas estruturas em que tanto se investe que a
farão reviver ou seduzirão positivamente, os que de olhos atentos, jamais verão
um enquadramento lógico e convincente dessas obras com o resto da cidade.
Se justamente,
recordarmos, os que naquele dia 18 daquele mês de Janeiro de 1934 arriscando as
suas vidas enfrentaram descalços e arcaicamente armados, um poder absoluto ao
serviço dos que exploravam o seu trabalho sem nenhuma consideração, sem nenhum
critério de justiça social ou humana, maior valor daremos à sua temeridade e
coragem.
Foram, os que
tirando partido do imenso e árduo trabalho alheio, impondo sacrifícios e muita
miséria, não proporcionando a quem os servia formas de vida digna, que
despoletaram naqueles homens de muita
garra e raiva contida, a vontade de lutar enfrentando batalhas tão desiguais.
Foi em Janeiro de
1934, esse exemplo de ousadia e coragem. Mais uma vez os vamos recordar e homenagear,
e, como sempre, pela voz dos que ao contrário do seu exemplo, tendo a
oportunidade de fazerem um pouco mais por esta cidade, tão poucos sinais nos dão
de perseverança e ousadia, mesmo sabendo, que há cidades como a de Detroit, que
vão morrendo lentamente, até que um dia abrem falência total e permanente, por
mais estranho e surpreendente que isso nos pareça “As cidades também morrem”.
+ Concelho
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